As fotos do 'Magical Misery Tour' de Martin Kippenberger no Brasil é documento de um tipo de narrativa histórica da arte da Alemanha, que sempre se orgulha do seu expressionismo de grande escala e ambições, retrato de uma certa atitude do artista macho-alemão de grandes gestos expressivos. Como por exemplo George Baselitz, Anselm Kiefer... Martin Kippenberger incorpora essa tradição, ao mesmo tempo que age como bobo da corte e faz piada da sua suposta onipotência de artista herdeiro do macho-expressionismo. Mas fazer papel de um brancão bêbado sem noção, no terceiro ou no primeiro mundo, não serve de desculpa para atuar de fato como um imbecil, que é o caso Kippenberger. Mais recentemente, esse modelo se renovou na figura de Johnathan Meese. Celebrado por muitos no mundo da arte, Messe também tira da cartola o 'brancão bêbado sem noção', em performances que diz: "congo... banana..." enquanto baba e joga com carrinhos. Ou, vestido de hitler, faz 'saudação' nazista enquanto 'cai de bêbado' num ringue de boxe.

A meu ver, a fotógrafa Ursula Boeckler só piora a performance constrangedora das fotos. No texto que acompanha a mostra, escrito em primeira pessoa, ela mostra um jovem artista alemão, kippenberger, que tudo pode em qualquer lugar, porque já nasceu autorizado pelo chauvinismo-ocidental, quer dizer, a crença de que 'sua cultura' é superior a todas as 'outras culturas'. Ursula parece mesmo acreditar nisso, e fala de um brasil de 1986 ou de 2017, dá no mesmo pra ela, como se fosse um terreno baldio miserável, com algumas ruínas de objetos e pessoas que o artista pode rearranjar e renomear a seu bel prazer (o Brasil e o mundo podem até vir a ser esse terreno baldio miserável, mas isso é outra história). A 'tom' de Ursula, assim como foi o caso de sua presença aqui em são paulo durante a exposição, evidencia a racha abissal que se abre entre a 'bolha branca' que ela vive e o mundo real. A 'bolha branca' é um lugar em que umas pessoas vivem em estado de negação permanente e de ignorancia profunda, sem nunca levar em conta ou sequer perceber as dinâmicas de exploração, expropriação e violência que estão em jogo para garantir as 'suas conquistas' - a conquista da arte ocidental, assim como da industria alemã e do deutschebank. Sem perceber ou sem se importar que quanto mais apartadas elas se vêem dos problemas do mundo real - miséria, racismo, genocídios étnicos - mais implicadas elas estão. (libidiunga cardoso)